“Dizer saudade é dizer pouco, quando se recorda um quinhão de vida espraiado por estas imensas paragens, de sol e mar sem fim, como que prometendo a eternidade sobre a face da terra. Quem não conhece África não pode imaginar a que me refiro. Porque só ali, sob a sombra da palma da mão aberta em toldo, com o oceano atrás do ângulo de visão e, em frente dos olhos, o areal frondoso a perder de vista, é que podemos imaginar que o mundo é grande. Apesar dos barcos, dos aviões, das culturas e das filosofias. Só ali, abrindo os braços ao vento e correndo até nos cansarmos de vez, podemos afiançar, sem rebuço, ter Deus criado a terra com generosidade e imaginação tão grandes que nunca, nunca mesmo, alguém destinado a morrer poderá aprender a merecê-la. (...) Dizer saudade é dizer pouco. Mas, felizmente, existe esta palavra de síntese, de filosofia simples e abrangente. Dizer saudade, em português, e sem receio de ser lamechas. Porque só quem nunca viu esta terra pode ter desistido desse sentimento que resta, comum a todos os que viram a transição do seu próprio mundo. E por isso, o título deste livro fica mesmo assim: saudade. Simples. E sem explicações. Como andar pela borda do passeio do tempo, e ir ouvindo a música que vem das bandas da igreja, numa manhã clara, avenida abaixo, em direcção à baía e ao mar.” da Introdução pelo autor
Luanda, cidade mítica dona de toda uma toponímia que apenas os que a viveram e amaram reconheciam e reconhecem. O quotidiano da capital de Angola é revisitado neste livro publicado pela Quimera através de imagens que a mostram ao longo dos três primeiros quartéis do século XX. E é sobretudo de um reencontro que se trata: uma viagem no tempo até às décadas de 1910 a 1970. Luanda no esplendor da sua beleza frágil mas, mesmo assim, intemporal. Um livro imperdível!